Durante esses meus quase 9 meses na Malásia pude observar muita coisa sobre o Islamismo. E inspirado na visita que fizemos hoje a uma mesquita, tentarei descrever aqui tudo que aprendi. Para aqueles que estão se perguntando: "Mas então o Lucas mudou de religião?" eu respondo: Não. Continuo firme em minha fé católica, mas não vejo nada de mau em entender um pouco melhor essa crença que move milhões de pessoas nesse mundo.
Os cinco pilares do Islã
A tradução da palavra Islã para o português seria algo como: "Absoluta submissão e obediência a vontade de Allah e suas leis". Assim como qualquer outra religião, seu intuito é guiar a humanidade pelo caminho de Deus, através da oração e obediência. O Islã prega que há somente um Deus, ao qual me referirei a partir de agora pela palavra Allah , Deus em árabe. E que todas as outras religiões erram ao venerar a criação de Allah, e não o próprio Allah. Para explicar melhor sobre isso, vou tentar citar os 5 pilares que sustentam o Islã, e a partir daí contar minha experiência.
1º Pilar - O testemunho da fé
Esse pilar afirma que "Ninguém tem o direito de ser venerado senão o próprio Allah e que Muhammad é o seu mensageiro". Segundo o Islamismo, todas as figuras históricas que conhecemos são na realidade profetas de Allah, inclusive Jesus, Buda e o próprio Muhammad - que foi quem escreveu o Qur'an, ou Alcorão como estamos acostumados. Na realidade, analisando melhor esse livro sagrado muçulmano, pode-se encontrar citações de várias pessoas conhecidas pelos católicos: Adão, Eva, Caim, Abel, Abraão, Isaac, Jacó e as 12 tribos de Israel, Davi, Salomão, Maria e Jesus. Todos são citados como profetas de Allah, e foram enviados para pregar suas palavras.
2º Pilar - Realizar as 5 orações diárias
Como muitos de nós já vimos em novelas ou livros, os muçulmanos devem rezer 5 vezes ao dia em horários pré-determinados, sempre em direção a Meca - cidade centro do Islamismo. Cada uma dessas orações é composta de uma série de 8 movimentos e diversos versos do Qur'an, que devem ser recitados em árabe. Acredita-se que cada uma das posturas utilizadas na oração traz uma série de beneficios ao corpo humano, entre eles melhor circulação sanguínea, purificação dos órgãos e sentidos, relaxamento dos músculos, maior poder de concentração, entre outros.
Em uma mesquita, ou mesmo em uma sala de orações, os homens devem estar descalços e rezar lado a lado, com os ombros encostados, em um sinal de igualdade e irmandade. Mulheres não devem nunca rezar ao lado de um homem, ao menos que este seja seu marido ou parente próximo. E isso eu posso ver claramente na empresa onde trabalho. Lá existe uma sala de orações, onde os muçulmanos fazem suas pausas para orações. Essas salas podem ser encontradas em todo lugar: empresas, escolas, estações de trem, etc.
3º Pilar - A caridade obrigatória (Zakat)
A idéia do Zakat é quase a mesma do Dízimo católico, com algumas diferenças. O total a ser doado é de 2,5% da sua receita anual, e esse dinheiro deve ser dado a uma família realmente necessitada. Tenho um amigo que trabalha em uma Organização de prevenção ao Câncer, e ele me ensinou coisas muito interessantes sobre esse costume. Aqui na Malásia, o governo recolhe o dinheiro do Zakat como se fosse um imposto, e se responsabiliza por distribui-lo entre uma lista de familias cadastradas e consideradas necessitadas. Mas isso não acontece na Arábia Saudita por exemplo, onde cada família deve escolher por contra própria para quem fazer a doação, o que é um problema pois não é tão fácil encontrar uma familia necessitada naquele país e é aí que entra a ONG do meu amigo. Eles pedem que essas pessoas façam a doação do Zakat a eles, que por sua vez utilizarão esse dinheiro para ajudar muçulmanos que sofrem de câncer. Segundo o Islamismo, você é proíbido de pedir esmolas, assim como você é obrigado a ajudar um irmão visivelmente necessitado.

4º Pilar - Jejuar durante o mês do Ramadhan
Essa foi uma experiência pessoalmente muito interessante. Durante o mês do Ramadhan, que no calendário Islâmico é baseado em um ciclo lunar entre os meses de Agosto e Setembro, todos os muçulmanos estão proíbidos de ingerir qualquer coisa enquanto o Sol estiver no céu. Ingerir qualquer coisa inclui comida, bebidas (inclusive água), cigarro e até mesmo sexo. Qualquer coisa que viole o seu corpo não deve ser praticada durante o dia. E essa regra é aparentemente seguida a risca. Muitos restaurantes fecham, a polícia tem o dever de prender qualquer muçulmano que viole a regra, é até mais dificil comprar comida para levar para casa - eles sempre suspeitam que você está alimentando algum muçulmano. E é engraçado ver chegar a hora do pôr do sol.. todos os muçulmanos correm para os restaurantes mais próximos, compram sua refeição e se sentam a mesa encarando o prato até dar a hora exata de comer. Assim que as mesquitas dão o sinal pelos alto-falantes, eles atacam...
No trabalho, fica claro como as pessoas que praticam o Ramadhan ficam mais cansadas com o passar do tempo, a gente faz de tudo para evitar comer ou beber qualquer coisa perto deles. Afinal não é nada legal saber que o cara está morrendo de sede, e você mandar ver aquele copão de água geladinha... Mas não se assustem, mulheres grávidas e pessoas doentes não são obrigadas a seguir o jejum.
Acredita-se que tal prática purifica o corpo humano, expulsando toxinas e demais substâncias prejudiciais. Assim como coloca as pessoas no lugar daquelas que passam fome, e as faz enxergar tais problemas com mais empatia.
5º Pilar - A peregrinação a Mecca.
Todo muçulmano deve ir pelo menos uma vez em sua vida a Mecca. Trata-se de uma peregrinação espiritual, de busca e veneração a Allah. Não vou entrar em muitos detalhes aqui, porque apesar de já ter estudado sobre essa cidade e seu significado para a religião, a memória me falha. Dedicarei um post exclusivo ao assunto mais tarde.
Mas é interessante citar que conheci um banco aqui na Malásia, controlado pelo governo, que tem o intuito de "ajudar" as pessoas a financiar essas viagens. Os que desejam podem fazer depósitos periódicos, que assim como em uma poupança, vai rendendo com o tempo. E que quando você desejar, lhe servirá de financiamento para a peregrinação.
Bom, espero que o post os ajude a entender um pouco melhor essa religião. O mundo ocidental muitas vezes a ilustra de forma exagerada e radical, o que não é totalmente verdade. É preciso ter a mente aberta para entender e respeitar a fé de outras pessoas, afinal das contas, nós cristãos também acreditamos em um só Deus, onipotente, onipresente e onisciente - Criador e Salvador do mundo.
Tenho muitas outras coisas para falar sobre o tema, mas acho que o post já ficou bastante longo. Vou parando por aqui... e espero voltar em breve!